Diante de uma das
maiores secas do sertão do Ceará nos últimos 40 anos, a criação de
cabras leiteiras e de corte é hoje uma opção viável e rentável para
pequenos produtores rurais que formam a agricultura familiar. Em vários
municípios do Estado do Ceará, como Tauá, Quixadá, Canindé, Tejuçuoca,
Morada Nova, Banabuiú, Itatira, Paramoti e Caridade, a atividade vem
crescendo nos últimos anos graças ao associativismo e aos recursos
liberados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Secretaria do
Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS). Além de ações de campo
desenvolvidas pelo Instituto Agropólos do Ceará e Secretaria de
Desenvolvimento Agrário (SDA), escritórios da Emater-CE local e
regional, Sindicatos dos Trabalhadores Rurais e Secretarias de
Agricultura municipais.
O projeto social de caprinocultura leiteira e
de corte está mudando a vida de muitas famílias de áreas de
assentamentos na maioria integrantes do Programa Nacional de Agricultura
Familiar (Pronaf).
Conforme o zootecnista da Emater-CE de
Canindé, Samuel Pimenta, assessor regional responsável pela cadeia
produtiva na região, o projeto tem um grande valor social e trará
resultados positivos para famílias carentes do semiárido.
"A ideia
da Secretaria de Desenvolvimento Agrário, no decorrer das ações, é a
distribuição, a todas as famílias beneficiadas, de sementes para
reservas estratégicas, entre as quais sorgo forrageiro, feijão guandu e
palma forrageira, capacitação para os criadores em manejo alimentar,
sanitário e reprodutivo de animais, além da gestão associativa e
cooperada".
Para participar do projeto de cabras leiteiras e de
corte, os produtores realizaram dias de campo sobre produção de silagem,
feno, ração, mineralização e missões técnicas. "Um fato que nos deixa
animados é que, após a entrega dos animais, os criadores já estão
ordenhando os animais e se beneficiando do leite caprino. O público-alvo
desse projeto são as famílias que participam do Bolsa Família",
acrescenta o secretário de Desenvolvimento Agrário do Estado, Nelson
Martins.
Os recursos são da ordem de R$ 2,5 milhões. Na opinião do
gerente local da Emater-CE de Canindé, Domingos Sávio, a criação de
cabras é uma das grandes potencialidades da região. A caprinocultura de
corte e leite fortalece a cadeia de segurança alimentar. "Enquanto os
criadores de bovinos estão com as mãos na cabeça para salvar seus
animais, os criadores de caprinos encontram mais facilidades de conviver
com a seca ou estiagem. Nunca ouvir dizer que um bode ou uma cabra
venha a morrer de fome ou sede numa seca", diz.
O prefeito de
Canindé, Celso Crisóstomo, lembra que a produção dos agricultores
familiares será destinada ao programa Leite Fome Zero. As compras já
somam até 5 mil litros de leite caprino por dia a um preço de R$ 1,20 o
litro. "Não existe comunidade nenhuma no mundo que consiga sair da zona
de pobreza, sem antes apostar na produção do campo, principalmente por
meio da agricultura familiar".
Na sua visão, o leite de cabra é
potencialmente tido como um produto de inclusão da agricultura familiar
no mercado, notadamente no Nordeste brasileiro, onde a caprinocultura
leiteira de base familiar vem se desenvolvendo em larga escala, dando
mais uma alternativa de sustento aos produtores.
Celson Crisóstomo
lembra ainda que a cabra foi o primeiro animal capaz de produzir
alimentos domesticados pelo homem, há cerca de dez mil anos. De lá para
cá, sempre acompanhou a história da humanidade, conforme se atesta em
diversos relatos históricos, que mencionam a presença dos caprinos.
"A
caprinocultura é uma atividade que vem se desenvolvendo muito nos
últimos anos. A população mundial de caprinos é estimada em cerca de 609
milhões de cabeças", atesta.
Há registros mostrando que as cabras
existem no Brasil desde 1560. Por serem animais de menor porte e mais
dóceis, foram trazidos em navios no lugar das vacas para garantir o
suprimento de leite das tripulações vindas de Portugal. Pequenas,
resistentes e produtivas, as cabras são velhas conhecidas dos
brasileiros.
Apesar disso, levaram 450 anos para saltar da condição de
animal de subsistência para status de espécies comercialmente rentável.
Ainda que no Nordeste existam raças mestiças extremamente rústicas,
criadas há décadas de forma solta no pasto, foi somente no fim dos anos
de 1990 que o rebanho ganhou representatividade comercial. O Brasil já
se posiciona como 11º maior produtor de leite de cabra do mundo, com
mercado estimado em 25 milhões de litros anualmente.
Vantagens do rebanho caprino O
zootecnista Samuel Pimenta afirma que se os criadores cuidarem da
sanidade do rebanho, empregarem novas técnicas de manejo alimentar e
reprodutivo, que possibilitem melhorias e qualidade dos animais na
ampliação do plantel de maneira uniforme e saudável, todos terão
sucesso.
"Com as técnicas adequadas, a redução da mortandade fica
praticamente zero e aumento no número do rebanho são comuns", frisa.
Para ele, uma das raças mais adaptadas para a região do semiárido é o
Anglo Nubiano, uma raça mista tanto para carne como para leite, a
Saaney, onde sua aptidão é leite, além de raças nativas como Canindé,
Moxotó, que tem aptidão para produção de carne´´, diz.
"A
exigência alimentar dessas raças não é tão grande. Possui excelente
desempenho alimentar no ganho de peso e produção de leite. Elas são
típicas de regiões semiáridas, onde o índice pluviométrico é baixo, na
qual se adaptam bem às condições de escassez de chuvas, se alimentando
de pastagens nativas da nossa Caatinga como, por exemplo, leucena,
excelente proteína, a vagem da algaroba, feijão guandu, mameleiro, todas
plantas predominantes da nossa região", explica.
Para mostrar a
viabilidade para se criar bodes, Samuel Pimenta faz um comparativo
interessante. "Uma vaca de 500 quilos come cerca de 40 quilos de
forragem, diariamente, e bebe 50 litros de água por dia, o que equivale
de 10 a 12 caprinos adultos durante o dia. A cabra bebe em média 12
litros de água e se mantém com 6 quilos de alimento no mesmo período. "A
cabra representa um meio de alimento de sobrevivência e uma saída
econômica para muitas famílias do sertão do Ceará", lembra Samuel.
A
vaca para primeira cria está apta a partir de 3 anos e só pare um
filhote dentro da normalidade. Já a cabra está pronta para cobertura a
partir dos 8 meses e é comum nascer dois filhotes. "A cada dois anos,
aproximadamente, a cabra assegura três crias, a vaca só voltaria a parir
depois de um ano. O intervalo entre os partos de uma vaca está na média
de 18 meses. A cabra nesse mesmo processo seriam 8 meses", ensina o
zootecnista. Com as técnicas aplicadas corretamente, nascem, em média,
dois cabritos por ano.
O manejo sanitário implica também o uso
correto de imunização, além de aplicar vermifugação de quatro em quatro
meses. "Em Tauá, quem cria cabra já aprendeu inclusive a fazer pequenas
cirurgias, corte do umbigo e castração, visando prevenir doenças e
infecções nos animais´", lembra Samuel Pimenta.
Para o secretário
de Agricultura e Recursos Hídricos de Canindé, Valdemir Amâncio, a
grande finalidade do órgão é conscientizar o agricultor sobre as
vantagens da criação de caprinos, animal rústico que se adapta com
facilidade ao clima do sertão do Estado do Ceará.
Em relação aos
bovinos, animais de maior porte e que comem por 12 caprinos, Amâncio
salienta que exige mais capital por parte dos criadores para aquisição
das matrizes e bezerros, além de mais tempo para a comercialização.
Quanto
aos caprinos, o mercado é favorável e a oferta atual sequer atende à
demanda regional. "Com sete meses, os caprinos chegam a uma média de 35
quilos e até um ano de idade é o tempo ideal para comercialização,
porque a carne está macia", lembra o secretário. |